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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Memorial do Convento - Visão pessoal da obra



Queria começar por apresentar um excerto de um poema de Bertolt Brecht chamado “Perguntas de um Operário Letrado”:
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras? (…)

E esta é a pergunta a que o Memorial do Convento responde, dizendo que não foram os reis mas sim o povo que, com o seu sangue e suor, construiu aquela megalómana obra. Saramago pretende fazer do povo a personagem principal desta história, passando as figuras régias para um plano secundário e reduzindo a sua suposta grandeza à dimensão de caricaturas. À semelhança dos Lusíadas ou da Mensagem, Saramago quer também resgatar estes homens do esquecimento (libertá-los da lei da Morte, como diria Camões) e reservar-lhes um lugar na História, para que possam ser reconhecidos pelo mérito que tiveram na feitura daquela gigantesca obra. E, nisto, o título da obra é importante: “Memorial” como se fosse um livro de lembranças que evoca a memória destes homens, que os recorda. A História oficial valoriza normalmente a esfera do poder, Saramago quase que repõe a verdade, e atribui ao povo e aos mártires o estatuto de verdadeiros fazedores da História. Saramago, ao resgatar do esquecimento esta massa anónima de pessoas e as condições sub-humanas em que se construiu o Convento de Mafra, está a apresentar-nos uma matéria simbólica para reflectir sobre o passado na perspectiva de dela extrair uma lição moral para o presente e o futuro. Segundo Croce, um filósofo italiano, “toda a História é contemporânea”, ou seja, a ideia de que a História é cíclica e, portanto, é necessário entendê-la para melhor lidarmos com o futuro (uma ideia também presente em Nietzsche, a ideia do eterno retorno). E é também por esta razão que é preciso evitar o esquecimento, para que não deixemos que aquelas que foram grandes atrocidades cometidas entre os chamados irmãos-humanos voltem a acontecer. No caso da construção do Convento de Mafra, falamos da exploração dos trabalhadores mas poderemos referir-nos a situações ainda mais graves, e mais recentes na História da Humanidade, como por exemplo, o Holocausto na Alemanha. É preciso que os países e as pessoas mantenham acesa a memória do que aconteceu para que se vejam obrigados a carregar uma cruz, a cruz do seu passado, porque quanto mais lhes pesarem as suas cruzes, menor será o risco de que certos acontecimentos voltem a dar-se. Mas que não seja uma lembrança doentia das coisas, é também necessário saber gerir as memórias de forma saudável, para que não sejamos absorvidos pelo ressentimento ou pelo rancor, e para que possamos recomeçar e dar aos outros e a nós próprios uma nova oportunidade.

Há na obra um contraste constante constituído por dois grupos antagónicos a que se podem chamar: grupo de poder – a aristocracia e o alto clero – e o grupo do contrapoder – o povo, nomeadamente o povo oprimido. O rei e a rainha e Blimunda e Baltasar constituem dois pares simbolizadores de duas vivências do amor completamente diferentes. Baltasar e Blimunda vivem um amor puro, verdadeiro e até, de certa forma, marginal e transgressor, porque não obedece aos códigos sociais da época e se basta a si próprio, enquanto o rei e a rainha são um casal apenas por razões de Estado, têm uma relação meramente artificial que obedece às regras da corte, que se encontram duas vezes por semana para cumprir o seu dever, ou seja, oferecer um herdeiro à coroa. Estes últimos vivem num mundo de ostentação de riqueza e poder, tentando colocar-se num pedestal, mas Saramago fá-los regressar à sua condição de seres humanos, em tudo iguais nos seus defeitos e nas suas fraquezas. (e aí poderíamos fazer referência ao “flato rijo” ou aos escrúpulos morais com que a rainha tem de viver por ter sonhos de carácter sexual com o seu cunhado). Vivem num chamado “mundo de enganos”, com uma ilusão de superioridade em relação aos seus súbditos, mas em que toda aquela magnificência é apenas aparente, é apenas uma máscara, porque afinal tudo aquilo é vão, tudo aquilo é efémero, já que todas as pessoas, independentemente da sua condição social, e pelo facto de serem pessoas, se situam a um mesmo nível perante as vicissitudes da vida, e sobretudo perante a inevitabilidade da Morte. No Hamlet, na cena em que ele fala com a caveira, que é a caveira do Yorick (um bobo da corte no tempo em que ele era pequeno), e ele a dada altura diz-lhe: “Vai ter com a minha dama e diz-lhe que por mais maquilhagem que ponha na cara, é a este estado que vai chegar”. E, portanto, o Memorial do Convento também nos diz que é inútil tanta maquilhagem, ou por outras palavras, tanta ostentação de riqueza e de poder, porque nas grandes questões como a Morte, somos todos iguais, ou usando um discurso mais bíblico, todos nascemos do pó e todos ao pó voltamos. 

Naquele documento que o stor enviou, com as indicações para esta apresentação, pedia-se para ter em consideração o Livro de Job, quando se falasse da ideia de sacrifício, (se bem se lembram, muito basicamente, conta a história de um homem que persiste e consegue manter a fé perante as adversidades que lhe são colocadas por Deus), mas eu gostava de relacionar com um livro que li recentemente que é uma espécie de actualização do Livro de Job, uma espécie de Livro de Job do século XXI, e que se chama “A Estrada” de um escritor norte-americano chamado Cormac McCarthy que fala de um pai e de um filho que, num mundo pós-apocalíptico, completamente devastado por aquilo que se pensa ter sido um ataque nuclear, feito de cinzas, sem lei, sem ordem, sem Esperança, sem Deus (pelo menos, na ideia que temos de Deus, como uma entidade boa), e eles vão em direcção à costa, sem saber se vão encontrar alguma coisa na costa, fugindo de salteadores, de canibais, passando fome e frio... Num mundo em que imperasse a razão/lógica, o mais óbvio seria o homem matar o filho e a seguir suicidar-se, mas eles persistem, continuam, o homem continua a proteger o filho, sem qualquer objectivo senão o de andar pela estrada. E a pergunta é porquê? Ele não vai chegar a lado nenhum, não vai encontrar nada de bom. Mas ele mantém aquela força, aquela fé inabalável (não é uma fé em Deus, porque já não há Deus, mas acho que uma fé nele próprio e na sua capacidade de resistência e sobrevivência). Porque mesmo que não haja Deus, é meu dever fazer o que está certo, porque há uma ética sobre todas as coisas, sobre a lógica e, sobretudo, sobre a religião, é meu dever continuar a andar e não tomar o caminho mais fácil e errado que, no caso deste livro, seria o de matar o filho e matar-se a ele. E, no caso da transportação da pedra, esta é uma forma de encarar o sacrifício, ou seja, suportando-o, continuando a andar e tentando conservar aquela centelha de esperança (por muito pequena que seja) numa eventual melhoria das suas condições de vida. (Uma Pequenina Luz, Jorge de Sena)

João Miguel Aragão

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Memória Despertada

    Sento-me a ler o jornal. A primeira página traz a manchete de uma notícia qualquer sobre a queda das acções na bolsa, acompanhada em baixo por uma fotografia de um homem com as mãos levadas à cabeça, olhando desesperado para um ecrã pintado de uma mixórdia indecifrável de números e letras. Com certeza preocupante, não é, no entanto, esta notícia que me prende a atenção. A Kate, sentada ao piano com o antebraço posto na parte lateral do instrumento e os dedos a dançar sobre o teclado, tenta compor. Vai martelando as teclas e anotando na pauta as notas musicais. Com os olhos a correr as palavras e, no entanto, sem ler absolutamente nada, fico a ouvi-la. É um som familiar e simultaneamente perturbador, feito de notas sozinhas envolvidas pelo silêncio; é uma toada aguda que atinge as profundezas da minha alma e se traduz no despertar de uma lembrança adormecida das minhas origens. É uma música profunda que me arranca pela raiz e me traz uma sólida memória da minha irmã, da minha irmãzinha, que ficou lá para trás no tempo, morta. Era ainda muito menina e já tocava piano lindamente. Oiço agora este piano e solicita-me a recôndita recordação da música que tocava no seu quarto, em aprendizagem monótona, e de mim, também criança, no quarto ao lado, a escutá-la. Este som dentro da minha cabeça, tão presente e doce, não chega a ser verdadeiramente a música que a minha irmã tocava, por vezes, ao final da tarde; é antes uma absoluta e irremediável saudade.
    Oiço, atrás de mim, a chuva contra os vidros. Levanto-me, chego-me junto à janela e olho através dela. Lá fora, a cidade mexe-se em plena consternação. Não a vejo, apenas olho na sua direcção. O prédio em frente do outro lado da rua, automóveis parados antes do semáforo e outros a passar com pressa, uma buzinadela a rasgar o silêncio, a luminosidade artificial das placas publicitárias dos cafés e das lojas ao nível do chão, as pessoas com os seus guarda-chuvas coloridos caminhando nos passeios como formigas nos seus carreiros: tudo isto se movimenta sob um pesado manto de chuva. Todas as coisas existem diante dos meus olhos, mas eu não as sinto a existir. Vejo no conjunto destes elementos, não o seu desenho, não os seus contornos, mas o seu leve sorriso a abrir-se-lhe nos lábios, projectado na paisagem. E sou invadido por uma profunda tristeza.

sábado, 20 de outubro de 2012

Actéon em "Os Lusíadas"

   
    Da mesma forma que Actéon, depois de transformado em veado, é atacado pelos seus cães de caça – que seria suposto serem-lhe fiéis – os marinheiros portugueses, chegados da viagem à Índia, não obtém reconhecimento e fama por parte daqueles que são seus pares.

João Miguel Aragão

Metamorfoses, Génesis e Lusíadas


    Em “Metamorfoses”, Ovídio propõe uma teoria do princípio do mundo. Segundo Ovídio, antes da formação do mundo havia apenas caos: uma massa informe e confusa, um amontoar de sementes diversas, não havia luz, nem mares navegáveis, nem terra habitável. Todas as coisas se opunham: o frio ao quente, o húmido ao seco, o mole ao duro. Foi então que Deus (ou uma forma de natureza mais organizada) pôs termo à disputa entre as coisas, separando a terra do mar, o mar do céu, o céu da terra. Organizou a terra para que pudesse ser habitada, criou os animais e, por fim, o homem. Segundo Ovídio, Deus fê-lo à sua imagem para que dominasse sobre todas as coisas da terra, ideia que está também presente nos Génesis.

    Deu-se então início à Idade de Ouro, tempo em que o homem viveu sem leis e com total liberdade, mas baseando-se em princípios como a rectidão e a lealdade. Gozava de uma ociocidade doce, sendo que tudo brotava da terra espontaneamente. Vivia num género de paraíso e estava muito perto da perfeição divina. Surgiu depois a Idade de Prata, em que o homem se viu obrigado a cultivar a terra para ter que comer. Neste período, a Primavera deixou de ser eterna e passou a dividir o ano com mais três estações, surgindo assim o frio e o calor. Apareceu então a Idade de Bronze, em que os homens começaram a pegar em armas. Logo de seguida, deu-se início, por fim, à Idade de Ferro, tempo em que o homem começava a praticar o mal: surge a traição, a violência, a ambição desmedida, a guerra.

    Também nos Génesis, quando Adão come o fruto proibido, desobedecendo a Deus e, por isso, pecando, termina o tempo de ociosidade paradisíaca e começa o do trabalho árduo da terra para dela poder arrancar alimento.

    Se considerarmos as quatro idades, percebemos que a primeira, a Idade de Ouro, é aquela que está mais próxima de uma espécie de perfeição divina, sendo o tempo em que o homem, feito à imagem de Deus, se assemelha mais com Ele, enquanto que, à medida que percorremos as restantes três idades, de Prata, Bronze e Ferro, podemos aperceber-nos de que o homem se vai afastando gradualmente de Deus e a sua imperfeição vai sendo cada vez maior.

    Se tivermos isto em conta ao lermos o episódio da Ilha dos Amores, de “Os Lusíadas”, compreendemos que este corresponde à Idade de Ouro de Ovídio, afirmando-se como um momento de transcendência das almas dos marinheiros portugueses, de elevação dos seus espíritos a um plano divino, pela relação tida com as ninfas, elas próprias seres divinos. A ilha, onde os marinheiros portugueses recebem a merecida recompensa pelos seus feitos heróicos, surge também como um género de paraíso, como um lugar de êxtase sexual e, ao mesmo tempo, repleto de paz e harmonia, onde puderam finalmente encontrar a concretização da sua existência. Tal como na Idade de Ouro de Ovídio, para os marinheiros portugueses é como se o mundo tivesse o seu princípio naquele momento.


João Miguel Aragão

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Canto IX, estrofes 75 a 84


Episódio de Leonardo

Leonardo é um soldado bem-disposto e valente, mas que contava com um problema: a má fortuna ao amor. A acção deste episódio decorre na Ilha dos Amores, em que Efire, uma ninfa da ilha, foge de Leonardo, ao mesmo tempo que este a tenta alcançar. No caminho, Leonardo pede-lhe que não fuga dele, que tenha em conta a sua má sorte ao amor e que se deixe alcançar. A dada altura, Efire desiste de fugir, cansada, e cai aos pés de Leonardo, entregando-se em puro amor.



Valor simbólico do casamento

Nas estrofes 83 e 84 do Canto Nono de “Os Lusíadas”, existe a entrega absoluta aos prazeres da carne e ao desejo sexual por parte dos portugueses e das ninfas, que se envolvem numa expressão mais física de um amor intenso. O sentimento de satisfação na entrega carnal era tal que desencadeou uma entrega desta vez mais espiritual, através do casamento, da união de espíritos. O casamento assume aqui um papel de consagração eterna de um amor que provoca a transcendência das almas e as eleva a um plano mais divino, oferecendo aos marinheiros a merecida recompensa.


João Miguel Aragão


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Mas, numa mão a pena e noutra a lança"

           Mesmo em guerra aberta com França, numa tentativa de a subjugar, César ao mesmo tempo que liderava as batalhas, não deixava também de se instruir.
Este verso pode também ser para Camões o retrato de si próprio, reconhecendo-se nele um tom autobiográfico. Para além de poeta (“pena”) e narrador das aventuras dos marinheiros portugueses, Camões foi ao mesmo tempo embarcadiço na viagem marítima para a Índia e guerreiro (“lança”) empenhado na defesa da pátria pela força das armas. Como poeta, Camões usou a palavra para salvar do esquecimento os feitos heróicos dos portugueses e garantir-lhes uma espécie de imortalidade. (“por obras valerosas se vão da morte libertando.”) O poeta defende que as aventuras vividas pelos marinheiros portugueses os fez rudes e insensíveis, (apesar de fortes e robustos na guerra), completamente indiferentes à arte de escrever, que é, segundo Camões, a única forma de salvar os heróis do esquecimento e dar-lhes um lugar na História. Diz que se se mantivesse a ignorância e a falta de capacidade dos embarcadiços para as letras, não haveria “Eneias nem Aquiles”, ou seja, não haveria heróis eternamente lembrados, porque não haveria ninguém capaz de registar os feitos dos portugueses, pelo que aos olhos do tempo nada teria acontecido, tudo teria caído no esquecimento completo. O poeta defende que guerreiro algum poderá ser louvado enquanto não houver interesse pela arte que o valorize, nomeadamente por intermédio da literatura. São os poetas que fazem os heróis; sem os poetas não poderia existir memória dos seus feitos. Faz também o paralelismo com os heróis da Antiguidade Clássica que para além de excelentes guerreiros eram também cultos e instruídos. Em todas as civilizações existe a conjugação da força e da inteligência; o poeta queixa-se que apenas em Portugal isso não se verifica.
Ora, é aqui que Luís de Camões entra e desempenha o papel de salvador da nação, aparecendo como um fósforo aceso na escuridão, isto é, apesar de ser também guerreiro, é diferente de todos os seus companheiros de aventura que, pelo seu analfabetismo, seriam incapazes de registar os aspectos mais relevantes da História de Portugal, pelo que é ele (Camões) que o faz. 

João Miguel Aragão

Episódio de Fernão Veloso


    Fernão Veloso é uma personagem d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, um dos marinheiros da frota que ruma à Índia que é individualizado pelo nome e a sua caracterização aponta para a humanização dos navegadores. É uma personificação de um herói que, na globalidade da obra, é colectivo, quero dizer, é o povo português.   O episódio de que faz parte a personagem de Fernão Veloso tem a sua componente humorística. No canto V, ignorando o perigo, crê-se, na sua arrogância, seguro para ir a terra, no entanto, ele é atacado pelos indígenas e forçado a regressar ao navio. Quando se  alvo de chacota pelos companheiros, mantém a sua postura de herói destemido e afirma: "Mas, quando eu pera  vi tantos vir / Daqueles cães, depressa um pouco vim, / Por me lembrar que estáveis  sem mim". O mesmo sentido de humor é reafirmado no canto IX, quando, desembarcados os navegadores na Ilha dos Amores, Veloso  um grito de espanto e aconselha os outros a seguirem as deusas, com intuito de verificarem "se fantásticas são, se verdadeiras".


João Miguel Aragão

Brincar Às Democracias


Ilusão e Crise de Representatividade

Tenho dezassete anos. Dentro de poucos meses, poderei votar pela primeira vez e assim participar, finalmente e de forma activa, na vida política nacional. Quero dizer, poderei iludir-me disso, de que desempenho um papel importante no desenrolar dos acontecimentos políticos do meu país, já que o meu voto será um instrumento meramente formal de participação na democracia e eu, como cidadão e eleitor, não terei verdadeiramente poder algum. O voto serve apenas para que se possa dizer que o povo representa um papel real e efectivo nas decisões políticas do país, quando na realidade não representa. O povo deixou de ser – se é que alguma vez o chegou a ser – a personagem principal desta história. Todas as decisões importantes são tomadas num círculo político muito restrito; tudo isto se passa acima das nossas cabeças. Existe hoje um enorme fosso entre o poder político e o eleitorado. Os políticos são eleitos e, assim que chegam aos cargos que ambicionavam, esquecem-se completamente de quem os elegeu, daqueles a quem tinham feito promessas e a quem devem servir. Esquecem-se das pessoas e dos seus problemas reais e passam a olhar exclusivamente para os números. Governam até com uma certa prepotência, porque o fazem conforme lhes apraz e não há nada que possamos fazer em relação a isso, uma vez que eles têm toda a legitimidade democrática para lá estarem, já que fomos nós – o povo - que os elegemos. Há cerca de uma semana atrás, na manifestação apartidária diante do Palácio de Belém aquando da reunião do Conselho de Estado, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, que, ao contrário do que seria suposto, também se encontrava presente, falava para a televisão, enquanto uma manifestante lhe gritava ao ouvido: “São todos iguais! São todos iguais!”. Ora, assiste-se hoje em Portugal a uma grande crise de representatividade, o povo não se revê nos políticos que o governam. Existe um grande descontentamento em relação a toda a classe política, da direita à esquerda, da esquerda à direita. Não existem boas alternativas. Não vou entrar na demagogia daqueles que pedem a demissão de toda a classe política porque – dizem eles – são todos um bando de assaltantes. Não se conhece democracia sem partidos políticos e, por isso, julgo que a solução para esta crise de representatividade está na mudança do sistema eleitoral. Só haverá uma abertura do círculo político nacional se os eleitores escolherem o seu próprio deputado que os represente e responda por eles no parlamento, como acontece no Reino Unido, em que se realizam as eleições por escrutínio uninominal maioritário, com uma só volta, e em que o candidato que recolhe o maior número de votos se torna deputado. Apenas com um sistema eleitoral deste género, se poderá estabelecer uma ligação mais efectiva entre o eleitorado e o poder político.


Democracia condicionada

Não poderemos continuar a afirmar que vivemos uma democracia plena e verdadeira enquanto os Estados estiverem sob a alçada de organizações financeiras internacionais como o FMI, a OMC, o BM e a OCDE. Nenhum destes organismos tem legitimidade democrática para impor as suas vontades aos países com os seus próprios parlamentos, uma vez que os seus representantes não são eleitos pelos respectivos povos. Vivemos pois uma democracia falsa e condicionada pelos interesses económicos que vêm dos centros superiores de decisão. A soberania dos países, que deveria pertencer aos próprios, ou seja, aos seus povos, está na verdade entregue a estas instituições financeiras. De que me serve o voto, se o governo que eu elejo é uma marioneta nas mãos destas organizações?


Democracia e Direitos Humanos

Numa democracia, que pelo facto de o ser tem que assentar em valores fundamentais como a liberdade e os direitos dos cidadãos, não se podem tolerar discriminações de cariz meramente economicista em áreas fundamentais para o cidadão como a Saúde. Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, informou que o Ministério da Saúde deve limitar o acesso aos medicamentos mais caros para tratar doenças como a sida ou o cancro. Afirma – e passo a citar - "vivemos numa sociedade em que, independentemente das restrições orçamentais, não é possível, em termos de cuidados de saúde, todos terem acesso a tudo". Questiona ainda: "Será que mais dois meses de vida, independentemente dessa qualidade de vida, justificam uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?" Parece inacreditável, mas a verdade é que o órgão consultor para a ética e deontologia médica sugere que se poupe dinheiro deixando que pessoas doentes morram. Os médicos transformam-se em contabilistas e os doentes em meros números. A função do médico não é medir o valor financeiro dos últimos meses de vida de um doente, mas sim, segundo o juramento de Hipócrates, fazer de tudo para o salvar, tendo em conta - claro - a vontade do doente e a sua qualidade de vida. Porque a vida, nem que seja um mês de vida, não tem preço. Ora, este é mais um caso paradigmático de que a garantia do voto universal não é suficiente para podermos dizer que vivemos em democracia. O voto dá-nos a possibilidade de escolher um governo mas não nos garante os direitos fundamentais (como o do acesso à Saúde) que têm que constituir obrigatoriamente as bases de um estado democrático.


João Miguel Aragão

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O conceito de Catástrofe

Catástrofe
O conceito


            Por definição, catástrofe é o conjunto dos últimos e funestos acontecimentos que constituem o desenlace da tragédia. Na catástrofe, os acontecimentos desenrolam-se segundo os actos das personagens e os logros do destino, da necessidade do fatum; encadeiam-se uns nos outros e, por vezes, precipitam a acção no seu curso através das peripécias, que acabam por orientar o rumo do drama em sentido inesperado. Esta mudança brusca é muitas vezes levada a cabo por um reconhecimento de laços de parentesco até então insuspeitados.
Aristóteles define catástrofe como o decorrer de peripécias que provocam mortes em cena, dores veementes, ferimentos ou sofrimento. O filósofo distingue três tipos de acção catastrófica: podem acontecer entre personagens inimigas, desconhecidas ou amigas. Quando ocorrem acontecimentos terríveis entre personagens inimigas, o público não fica surpreendido, uma vez que já era previsível que acontecesse; quando os mesmos acontecimentos se dão entre personagens desconhecidas, o público não estranha, visto que não há uma intenção por detrás dos eventos, pela ausência de laços entre os intervenientes; mas quando ocorre algo terrível entre personagens amigas, ou até entre familiares, como um assassínio, por exemplo, o caso torna-se atroz e pode despertar, no público, sentimentos de tristeza, piedade e até revolta.
A catástrofe, tendo sido conceptualizada no domínio da tragédia grega, género que deixou de existir depois do Renascimento, tem, no entanto, aplicação em géneros actuais ou recentes, como o romance, que também recorre à imitação ou à reconstrução verosímil de acções complexas. Os exemplos flagrantes e mais conhecidos desta osmose encontram-se, no que toca à Literatura Portuguesa, em “Viagens na Minha Terra” de Almeida Garrett e em “Os Maias” de Eça de Queiroz, onde se podem com facilidade assinalar peripécias, reconhecimentos e catástrofes, pelo menos latentes.

J. Aragão

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Impressões de Viagem

Santarém, 28 de Novembro de 2011

     O dia estava luminoso, o céu limpo. Estávamos a chegar a Rio Maior. Os imensos campos verdes e os rebanhos que nele pastavam, iam lembrando que a região era rural e que, por o ser, a terra negra respirava e não era asfixiada pelos homens como na cidade, as árvores gozavam a liberdade de serem penteadas pelo vento e as estrelas apareciam de noite sorridentes. Ainda no autocarro, olhei aquilo que me parecia um campo de oliveiras. A paisagem era sublime! Que maravilha! As muitas gotinhas de orvalho reflectiam a tímida luz solar nas ervas rasteiras como um chão salpicado de estrelas brilhantes, enquanto a neblina matinal caía sobre a terra a turvar o horizonte. O verde das folhas, o negro da terra, o azul do céu, tudo atingia o ponto máximo de perfeição. Tudo me parecia belo! Estranhamente belo, diria, na consciência de que, noutro dia qualquer, o mesmo olival que agora me prendia o ser, tão simples e vulgar, me teria passado completamente despercebido. Subitamente, veio-me à memória Werther, personagem de um romance de Goethe, que, por estar feliz e tendo o coração aberto, via um paraíso a cada passo e reconhecia na natureza a total realização da sua existência. Ao que parece, também eu estava feliz e disso não tinha dado conta. Estava feliz e não sabia porquê. Não sei sequer se tem que haver razões que justifiquem a felicidade. Não sei nada. Sei que, naquele momento, a paisagem deliciava-me. Tinha sabor a Sol. Sabia que, estando feliz, a palavra morte era apenas mais uma a navegar sem rumo no mar dos sentidos. De resto, nada sei se nunca morri.

     De tarde, já no centro histórico de Santarém, foi uma outra situação que me prendeu a atenção. Vi um grupo de quatro, cinco velhos sentados no banco de um jardim. Nisto, tudo me teria parecido normal. Contudo, os velhos permaneciam imóveis, calados, acanhados; e isso impressionava-me. Não falavam, talvez com medo de gastar as palavras já gastas. Duvido que pensassem. Não imaginam, certamente, que na realidade, não estão sentados naquele banco, estão sim sentados à beira da vida. Esta passa por eles e não os olha; eles, porventura, olham mas não a vêem. Deixaram de sonhar, perderam a esperança. Não vivem; deixam-se viver. Limitam-se a existir. Acho que choram sem lágrimas. Trazem um olhar vazio e uns olhos sempre fixos que não fixam ninguém. São sombras do que foram e estão sós, mesmo quando acompanhados. São almas mortas à espera que o corpo pereça.
J. Aragão

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe

“Os Sofrimentos do Jovem Werther”
de Johann Wolfgang von Goethe

          “Os Sofrimentos do Jovem Werther” é um romance trágico e confessional, de tom autobiográfico, escrito em forma epistolar, isto é, sob a forma de carta. Esta obra a história de um amor não correspondido. Foi lançado em 1774, tinha Goethe apenas 24 anos. Esta obra identifica, desde logo, o seu jovem autor como um dos grandes representantes do romantismo.

Resumo da Obra:
            Werther, um jovem da pequena burguesia, parte para longe da sua família e amigos e instala-se numa pequena cidade no norte da Alemanha. Parte motivado pela resolução de uma herança junto de uma tia que lá vive e a necessidade de isolamento devido à morte de uma rapariga a cujo amor não correspondeu. Inicialmente, como não conhece ninguém nem tem ocupações definidas, vai ocupando o seu tempo com longas caminhadas e desfrutando da natureza. Reconhece a realização da sua existência na natureza e na simplicidade da vida dos camponeses. Sente-se feliz. Certo dia, conhece Carlota, que está já comprometida com Alberto, e apaixona-se por ela. Dá início a uma série de visitas a casa de Carlota e constrói uma amizade com Alberto, noivo de Carlota. Carlota não dá esperanças a Werther e deixa ao tempo a função do esquecimento. Carlota tem por Werther uma enorme compaixão. Werther vive na angústia de não ver o seu amor correspondido. Aconselhado pelo seu amigo Guilherme, a quem endereçava as cartas, Werther viaja para longe de Carlota e emprega-se ao serviço de um embaixador. A desconsideração por parte do embaixador e uma grande insatisfação interior (nunca está bem onde está; aborrece-se dos sítios) levam-no a voltar para perto de Carlota, que só lá se sente bem. Uma sucessão de acontecimentos torna gradualmente insuportável a sua existência. A morte do filho mais novo da família de camponeses que costumava visitar, o assassinato de uma mulher por parte de um homem que por ela se tinha apaixonado e não via o seu amor correspondido, o encontro com um homem que tinha enlouquecido depois de também se ter apaixonado por Carlota e, por fim, o pedido de Carlota, pressionada por Alberto, para que Werther se afastasse dela, foram os ingredientes que levaram Werther a suicidar-se. Escreve uma carta de suicídio endereçada a Carlota. Vai vê-la pela última vez e arranca-lhe um beijo à força. Werther manda o seu criado a casa de Alberto, para lhe pedir a sua pistola. Já na posse da pistola, Werher fecha-se no quarto, senta-se à secretária, onde estava aberta a tragédia “Emília Galotti” de Lessing, e dispara contra a sua cabeça, sobre o olho direito.

Semelhanças entre a obra e a vida do autor:
            Muitos dos acontecimentos narrados ao longo da obra cruzam-se com o que realmente aconteceu a Goethe.
·       O jovem Goethe chega em 1772 a Wetzlar, uma pequena cidade no norte da Alemanha, para dar início à sua carreira de advogado. Ali conhece Christian Kestner, noivo de Charlotte Buff. Goethe apaixona-se por ela e começa a frequentar a sua casa. Ciente da impossibilidade deste amor, Goethe abandona a cidade, tal como Werther.
·       A ideia do suicídio advém da história de um homem que conheceu em Wetzlar, que se matou por causa de um amor não correspondido.
·       No início de 1774, Goethe apaixona-se por uma mulher casada, em Frankfurt, e dá início a uma série de visitas a sua casa. Ao saber disto, o marido proíbe-o de voltar ao convívio com a sua mulher.

Divisão da Obra:
A obra está dividida em três partes.
·       Na primeira parte estão presentes as cartas de Werther a Guilherme, em que ele relata a sua chegada à cidade, a sua adoração pela natureza, a sua felicidade e, sobretudo, a sua paixão por Carlota. É no final da primeira parte que Werther, ciente da impossibilidade de concretizar o seu amor, viaja para longe de Carlota e se emprega ao serviço de um embaixador.
·       No início da segunda parte, as cartas mostram que Werther, motivado pela desconsideração do embaixador e a pela sua insatisfação interior, regressa para perto de Carlota, que só lá se sente bem. A segunda parte é marcada pela angústia e pelo sofrimento de Werther, ao ver o seu amor não correspondido.
·       A terceira parte é constituída pelas notas do editor ao leitor. É a intervenção de um narrador ausente para nos fornecer uma visão algo distanciada dos acontecimentos que antecederam a morte de Werther.

Caracterização de Werther:
Nesta obra, o “eu” vai sendo construído, aos olhos do leitor, por acrescento e sobreposição, surgindo disperso ao sabor dos dias e dos momentos.
·       É exaltado, disparatado, melodramático, fervoroso, desequilibrado, vibrante, comovido, excitado, exagerado, inquieto, desassossegado e extremamente sensível.
·       Tem sempre o sangue a ferver-lhe nas veias
·       Tem o coração sobressaltado
·       Dá voz ao coração e não à razão
·       Revela uma grande transparência de sentimentos
·       É tomado por uma paixão cega, obsessiva, profunda, tempestuosa e quase doentia. Páginas 145 e 146
·       Demonstra paixão, loucura e embriaguez.
·       Revela alguma fragilidade e fraqueza de espírito.
·       Apresenta um carácter inflamado, nada comum aos alemães, que são, na sua maioria, frios, indiferentes, fleumáticos. Diria até que Werther mais parece italiano.
·       As suas últimas cartas manifestam a sua perturbação, o seu delírio, as suas angústias e mágoas, as suas lutas interiores e o seu desgosto pela vida.
·       Nos seus últimos dias, as angústias do seu coração consumiram as forças que lhe restavam; a sua vivacidade e a sua alegria de viver extinguiram-se. A angústia que sentia está bem presente na passagem da página 158. (…)
·       Werther, que mostrou ser desassossegado e exaltado durante toda a acção, revelou nos dias que antecederam a sua morte, uma grande serenidade e tranquilidade interiores, quando decidiu que a única saída para aquele sofrimento é a morte. Fez-me lembrar, embora em contextos diferentes, o “Falling Man”, um homem que se atirou de uma Torre Gémea, com os braços ao lado do corpo, revelando aparentemente uma enorme paz interior, aquando dos atentados do 11 de Setembro.

Análise pessoal:
·       Este livro serviu para Goethe como uma catarse dos seus desgostos e fracassos amorosos, isto é, pela libertação de emoções e sentimentos que haviam sofrido repressão
·       É curioso que Goethe seja o escritor nacional dos alemães, e que se pareça muito pouco com os alemães, em termos de personalidade. Partindo do princípio de que Werther é Goethe, este apresenta um carácter exaltado e inflamado, nada comum aos alemães, que são, na sua maioria, frios, indiferentes, fleumáticos.
·       É um romance de tom autobiográfico ainda que Goethe tenha tido o cuidado de mudar alguns nomes e lugares, a fim de não melindrar as pessoas e de Goethe permanecer no anonimato
·       Pessoalmente, acho que todos os livros são, de alguma forma, autobiográficos. A construção da história resulta de algo que se passou na vida do escritor, algo em que ele tropeçou, algo que ele ouviu, sentiu, viveu ou sonhou. Octávio Paz, escritor mexicano e Nobel da Literatura, disse que “os poetas não têm biografia; a sua obra é a sua biografia”. Penso que isto se aplica a esta obra de Goethe, ainda para mais porque Goethe também é poeta.
·       Apesar das descrições de roupas, tradições e normas características da época, este é um livro actual, na medida em que fala de uma paixão e penso que a essência de sentimentos como o amor não muda nunca.
·       Este é um bom livro, porque, para mim, um bom livro é aquele que fala do universo que está dentro de nós e não do universo que está à nossa volta. Um bom livro é um livro em que me vejo a mim mesmo, em que as páginas são espelhos e me revelam quem sou e, de certa forma, me ajudam a viver.
·       Goethe escreve com tanta intensidade que parece que amamos e sofremos com ele. Conta-se que, pela altura da saída do livro, houve na Europa uma estranha onda de suicídios, devido à profundidade das palavras de Goethe. A obra foi, inclusivamente, proibida nalgumas regiões por se entender que incitava ao suicídio.
·       As palavras aproximam-nos do autor, tornado a nossa concordância com os acontecimentos narrados quase uma imposição, porque é a única voz que se ouve.
·       Werther aborda o problema da existência humana. Fala da efemeridade do homem até nos lugares onde tem certeza da sua existência, na passagem das páginas 132 e 133. (…)
·       Werther estabelece a diferença entre o que foi (vivia feliz, apaixonado, tinha alegria de viver, reconhecia a realização da sua existência na natureza, tudo lhe parecia belo) e o que é (fecha-se numa escuridão grave e pesada, sofre, anda angustiado, manifesta um grande desgosto pela vida, não encontra um sentido para a sua existência) na página 134.
·       O amor pode ser a melhor coisa do mundo mas, se não for correspondido, pode facilmente, transformar-se na pior coisa.

J. Aragão