sábado, 20 de outubro de 2012

Metamorfoses, Génesis e Lusíadas


    Em “Metamorfoses”, Ovídio propõe uma teoria do princípio do mundo. Segundo Ovídio, antes da formação do mundo havia apenas caos: uma massa informe e confusa, um amontoar de sementes diversas, não havia luz, nem mares navegáveis, nem terra habitável. Todas as coisas se opunham: o frio ao quente, o húmido ao seco, o mole ao duro. Foi então que Deus (ou uma forma de natureza mais organizada) pôs termo à disputa entre as coisas, separando a terra do mar, o mar do céu, o céu da terra. Organizou a terra para que pudesse ser habitada, criou os animais e, por fim, o homem. Segundo Ovídio, Deus fê-lo à sua imagem para que dominasse sobre todas as coisas da terra, ideia que está também presente nos Génesis.

    Deu-se então início à Idade de Ouro, tempo em que o homem viveu sem leis e com total liberdade, mas baseando-se em princípios como a rectidão e a lealdade. Gozava de uma ociocidade doce, sendo que tudo brotava da terra espontaneamente. Vivia num género de paraíso e estava muito perto da perfeição divina. Surgiu depois a Idade de Prata, em que o homem se viu obrigado a cultivar a terra para ter que comer. Neste período, a Primavera deixou de ser eterna e passou a dividir o ano com mais três estações, surgindo assim o frio e o calor. Apareceu então a Idade de Bronze, em que os homens começaram a pegar em armas. Logo de seguida, deu-se início, por fim, à Idade de Ferro, tempo em que o homem começava a praticar o mal: surge a traição, a violência, a ambição desmedida, a guerra.

    Também nos Génesis, quando Adão come o fruto proibido, desobedecendo a Deus e, por isso, pecando, termina o tempo de ociosidade paradisíaca e começa o do trabalho árduo da terra para dela poder arrancar alimento.

    Se considerarmos as quatro idades, percebemos que a primeira, a Idade de Ouro, é aquela que está mais próxima de uma espécie de perfeição divina, sendo o tempo em que o homem, feito à imagem de Deus, se assemelha mais com Ele, enquanto que, à medida que percorremos as restantes três idades, de Prata, Bronze e Ferro, podemos aperceber-nos de que o homem se vai afastando gradualmente de Deus e a sua imperfeição vai sendo cada vez maior.

    Se tivermos isto em conta ao lermos o episódio da Ilha dos Amores, de “Os Lusíadas”, compreendemos que este corresponde à Idade de Ouro de Ovídio, afirmando-se como um momento de transcendência das almas dos marinheiros portugueses, de elevação dos seus espíritos a um plano divino, pela relação tida com as ninfas, elas próprias seres divinos. A ilha, onde os marinheiros portugueses recebem a merecida recompensa pelos seus feitos heróicos, surge também como um género de paraíso, como um lugar de êxtase sexual e, ao mesmo tempo, repleto de paz e harmonia, onde puderam finalmente encontrar a concretização da sua existência. Tal como na Idade de Ouro de Ovídio, para os marinheiros portugueses é como se o mundo tivesse o seu princípio naquele momento.


João Miguel Aragão

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